Escada de incêndio

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em Piolho 25/26, Outubro 2018.

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Pequena Ode Antropocénica

Enquanto as oliveiras envelhecem três mil anos nos campos antes do bulldozer

Enquanto alguns cientistas aguardam a singularidade tecnológica que transformará a humanidade

Enquanto muitos capitalistas preparam a automatização inteligente do globo  que redundará a multidão humanal

Enquanto as baleias fazem os seus chamamentos nos oceanos ácidos e desertos antes dos arpões

Ouvem-se os teclados a cantar o alvoroço lucrativo das multinacionais por detrás dos vidros dos escritórios

(laboram aí aqueles que dormitam em comboios, autocarros e automóveis

Que viajam de metropolitano num silêncio ensimesmado

Que entrechocam apressadamente nos túneis das estações a ouvir Low ou Napalm Death

Que bebem goles curtos de café fumegante à secretária

Que vivem metade de si online

Que trabalham metade da vida em full-time

Que produzem pressurosamente os incontáveis números dos ecrãs coloridos de gráficos eriçados)

Enquanto uns loucos bravejam contra a sombra dos miseráveis que encobrirá o céu

Enquanto certos crentes cortam as gargantas dos infiéis com a lâmina das folhas dos livros sagrados

Enquanto tantos inocentes explodem em pedaços sob os escombros e a poeira da guerra

Outros derrubam as oliveiras que envelheceram três mil anos nos campos.

 

em em Gazeta de Poesia Inédita (9 de Dezembro de 2018)

Hipérboles

Tempestades agitando o vazio de copos de água
Um motim num navio em miniatura dentro de uma garrafa
Um kamikaze de plástico num avião telecomandado
Uma batalha numa maqueta cuidadosamente montada

 

em Inefável | Revista em rede de poesia, # 15, Janeiro-Dezembro de 2018

Flores

«Alguns homens nunca pensam em tal coisa.
Tu pensaste. Tinhas aparecido
E quase me ofereceste flores.
Mas algo tinha corrido mal.

A loja estava fechada. Ou estavas em dúvida –
O género de dúvidas que as pessoas como tu
Sonham incessantemente. Pensaste
Que eu poderia não querer as tuas flores.

Isso fez-me sorrir e abraçar-te nessa altura.
Agora só me resta sorrir.
Mas repara, as flores que quase me ofereceste
Estiveram sempre a florir.

 

Flowers

Some men never think of it.
You did. You’d come along
And say you’d nearly brought me flowers
But something had gone wrong.

The shop was closed. Or you had doubts –
The sort that minds like ours
Dream up incessantly. You thought
I might not want your flowers.

It made me smile and hug you then.
Now I can only smile.
But, look, the flowers you nearly brought
Have lasted all this while.»

Tradução de «Flowers» de Wendy Cope publicada em DiVersos – Poesia e Tradução (nº 20, 2014)

Granada

«Granada cor da terra entre bosques de choupos em alcândora serra nevada córregos discretos na Páscoa espalham-se dentes de leão e odores silvestres»

Monumentos (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016)

Lisboa

«Lisboa

és tempo edificado
muralhas engolidas pelas casas
casas soterradas pelos prédios
fábricas, armazéns, cafés e cinemas fechados
debaixo da tinta fresca, por detrás dos espelhos , sob os estuques novos;
és os vivos que caminham sobre os mortos e jamais se encontram
árvores e ruas a crescerem juntas
beijos que deixam rabiscos nos bancos dos jardins
és os que perdem os apelidos e dormem sobre as tuas pedras, nos teus cantos
o vento que sopra uma vez na vida e faz cair os nomes das ruas e das praças
quais folhas de mármore

Monumentos (Edições Bicho de Sete Cabeças, 2016)